*Dr. Leonardo Lacava
Neste mês acompanhei, em Barcelona, o 40º Encontro Anual da Associação Europeia de Cirurgia Cardiotorácica, a EACTS, da qual sou membro e cujo congresso frequento todos os anos desde 2011. É o maior congresso de cirurgia cardiotorácica do mundo. Neste ano a expectativa era de mais de 5 mil participantes e mais de 400 trabalhos científicos apresentados. Volto com a sensação de sempre: o mais valioso não é estar lá, e sim trazer de volta o que pode mudar o cuidado com quem opera aqui.
Divido com o leitor três temas que, a meu ver, mais interessam a quem convive com doenças do coração.
Ponte de safena e mamária: o cuidado que continua depois da cirurgia
A cirurgia de revascularização, a popular “ponte”, segue como um dos tratamentos mais estudados da medicina. O congresso trouxe dados de 10 anos de acompanhamento do estudo DACAB, que comparou o ticagrelor com a aspirina após a cirurgia. Outro trabalho foi uma análise que compara o uso de várias pontes arteriais com o uso de apenas uma, dentro do estudo ART. Também se discutiu uma versão reformulada do EuroSCORE, a calculadora usada no mundo todo para estimar o risco de uma cirurgia cardíaca.
A mensagem para o paciente é simples. O sucesso da ponte depende do que acontece na sala de cirurgia, mas também de anos de remédios bem tomados, colesterol controlado e acompanhamento regular.
Nesta edição, nossa equipe também apresentou os resultados da linha de pesquisa que desenvolvemos sobre a cirurgia coronária em mulheres. O tema é pouco lembrado: as mulheres costumam chegar ao diagnóstico mais tarde e, historicamente, têm resultados menos favoráveis após a ponte. Foi gratificante ver o trabalho despertar o interesse de grupos internacionais que estudam o mesmo problema, como o de Toronto, no Canadá.
Houve ainda um momento de emoção: uma sessão dedicada à memória do cirurgião David Taggart, falecido neste ano. Ele foi uma das vozes mais firmes na defesa da cirurgia coronária baseada em evidência honesta.
Arco aórtico: menos agressão, mais precisão
O arco aórtico é a curva da principal artéria do corpo, de onde saem os vasos que irrigam o cérebro e os braços. Operá-lo continua sendo um dos maiores desafios da nossa especialidade, sobretudo na dissecção aguda, quando a parede da aorta se rompe internamente. O congresso teve sessões dedicadas às estratégias híbridas e endovasculares para o arco, em situações agudas e crônicas. Isso inclui próteses que combinam a cirurgia aberta com endopróteses colocadas por dentro do vaso. A tendência é clara: tratar mais da aorta doente em um único tempo, com menos sangramento e menor risco ao cérebro.
Em nosso serviço, que se tornou referência regional tanto em cirurgia cardíaca quanto em cirurgia vascular e endovascular, realizamos mais de 100 procedimentos por ano envolvendo o arco aórtico. Mais do que um número, isso representa a responsabilidade de trazer para cá o que há de mais atual, sem que o paciente precise sair da região.
Cardioplegia: proteger o coração enquanto ele “descansa”
Para operar dentro do coração, nós o paramos temporariamente com uma solução chamada cardioplegia, enquanto uma máquina mantém a circulação. Como proteger o músculo cardíaco nesse período é uma pergunta tão antiga quanto a própria cirurgia, e continua evoluindo. Entre as alternativas em discussão está o Cardioplexol, uma solução de pequeno volume, cerca de 100 ml, aplicada pelo próprio cirurgião. Ela para o coração quase imediatamente e, na maioria das cirurgias coronárias, uma única dose é suficiente. Em um estudo randomizado europeu, o Cardioplexol se mostrou tão eficaz e seguro quanto a cardioplegia sanguínea tradicional, considerada referência. Menos volume e menos interrupções significam uma cirurgia mais simples e fluida. Para o paciente, o que importa é saber que cada detalhe técnico é estudado para que o coração saia da cirurgia mais forte, e não mais cansado.
O que fica
O presidente da EACTS, Rafael Sádaba, deu à sua conferência um título que resume bem o espírito do encontro: “faça o que puder, com o que tem, onde estiver”. Volto com essa frase na bagagem. A boa medicina não depende só da tecnologia mais cara, e sim de aplicar com critério o que a ciência demonstra, aqui, no nosso hospital, com os nossos pacientes.
- Dr. Leonardo Lacava Lopes é Cirurgião Cardiovascular e Vascular, Chefe do Serviço de Cirurgia Cardiovascular do Hospital Regional São Paulo (HRSP), em Xanxerê (SC).
Formação:
- Especialista em Cirurgia Geral, Cirurgia Cardiovascular, Cirurgia Vascular e Estimulação Cardíaca Eletrônica Implantável
- Especialista em Transplante Cardíaco pelo InCor/USP
- Doutorando pela Faculdade de Medicina da USP/InCor
Sociedades:
- Membro titular da SBCCV, Membro especialista da SBACV e
- Membro da EACTS.
Pesquisa:
- Pesquisador principal do QUEEN Trial, ensaio clínico em cirurgia coronária em mulheres.

